terça-feira, 14 de dezembro de 2010

O sossego do silêncio


Aqui está-se sossegado,
Longe do mundo e da vida,
Cheio de não ter passado,
Até o futuro se olvida.
Aqui está-se sossegado.
Tinha os gestos inocentes,
Seus olhos riam no fundo.
Mas invisíveis serpentes
Faziam-a ser do mundo.
Tinha os gestos inocentes.

Aqui tudo é paz e mar.
Que longe a vista se perde
Na solidão a tornar
Em sombra, o azul que é verde!

Sim, poderia ter sido…
Mas vontade nem razão
O mundo têm conduzido
A prazer ou conclusão.
Sim, poderia ter sido…

Agora não esqueço e sonho.
Fecho os olhos, oiço o mar
E de ouvi-lo bem, suponho
Que vejo azul a esverdear.
Agora não esqueço e sonho.

Não foi propósito, não.
Os seus gestos inocentes
Tocavam no coração
Como invisíveis serpentes.
Não foi propósito, não.

Durmo, desperto e sozinha.
Que tem sido a minha vida?
Velas de inútil moinho
Um movimento sem lida…
Durmo, desperto e sozinha.

Nada explica nem consola.
Tudo está certo depois.
Mas a dor que nos desola,
A mágoa de um não ser dois
Nada explica nem consola.

Fernando Pessoa

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

De volta à penumbra da ilusão..


Alimentar uma velha ilusão, esse é meu pecado. Diríamos que um dia isso possa fazer sentido, só não sei até quando posso suportar essa incerteza que lentamente me faz cair. Eu não faço questão de ter tudo em mãos, de reconstruir planos ou promessas, só quero uma prova do quão longe eu posso chegar. Voltando àquela velha imagem retorcida que nunca se desfaz, penso em desistir, mas sinto-me impotente. Vejo o seu olhar se afastando tão lentamente quanto o meu coração se põe a respirar, o que me leva a repensar sobre o que sinto, o que vejo e o que não passa de uma velha farsa da ilusão sobre um mal desconhecido do que não posso fugir, e muito menos negar.

Aqui estou eu novamente, engolindo esse orgulho movido à incerteza do que nunca soube. Sozinha no meu canto, com medo do que possa ser essa dor que grita por satisfação desse alguém que se desfaz ao cair em meus toques de orgulho e serenidade. O que jamais poderei descrever, até enxergar o que realmente sinto por você. Entretanto, o inevitável constrange solenemente minha expressão em palavras ocultas, que só cabem a mim desvendar o mistério dessa doce e incompreensível ilusão. Visto que todo e qualquer sentimento parte do tal desespero dessa minha vida sem chão.